sexta-feira, 12 de julho de 2013

Fracos

Abro os olhos e o quarto está repleto de luz. A luz não é forte. Devem ser apenas 7h da manhã. Olho para o relógio para ter a certeza. Acertei. Passam apenas alguns minutos das 7h. Quero dormir novamente. Fecho os olhos e sinto algo a escorrer para a almofada. São lágrimas. Mas porquê? Sei o motivo, mas não o quero aceitar.
Levanto-me e fecho a janela. Não quero ver a vida lá fora. Quero estar no escuro. Talvez goste tanto da escuridão por um simples motivo, é assim que me sinto, escura, sem luz.
Volto para a cama e adormeço. Acordo e a minha barriga rosna-me. É a fome. Estranhamente, comer é a última coisa que me apetece. Aconchego-me e tento adormecer. Não consigo. Sinto novamente as lágrimas a querem rolar por os meus olhos. Não posso. Não quero. Lágrimas são para fracos. Penso. Tu és fraca. Completo. Não quero ser.
Levanto-me e procuro o meu caderno. Preciso de escrever. Coloco a caneta entre os dedos e as palavras não saem. Porquê? Sinto tanto e não consigo escreve-lo porquê? Sinto-me a cair. É assim que os fracos se sentem. Desisto.
Volto para a cama e adormeço.
Acordo e são 16h da tarde. A casa encontra-se silenciosa. Estou sozinha.
Levanto-me novamente em busca de alguma coisa para comer. Abro o frigorífico e nada me agrada, embora este esteja repleto de coisas que adoro. Fecho-o e começo a chorar. Porquê? Estou fora de mim.
Abro uma das gavetas da cozinha e encontro um maço de cigarros por abrir. Tiro o plástico e retiro um cigarro e vejo-o molhado. As lágrimas não secam, continuam a cair. Sou uma fonte que não seca. Mas porquê?
Acendo o cigarro e sento-me no quintal apenas em pijama. Fumo o cigarro e vejo como este se desfaz em cinzas. O cigarro é parecido comigo. Também eu me estou a desfazer em cinzas.
Sinto arrepios, mas não tenho frio. É o medo. Estou aterrorizada. Aterrorizada e sozinha. Estou sozinha.
Estou sozinha. Sou fraca.
Mas porquê?
O medo consome-me. Consome-me tal como o ar consome o cigarro. A vida ensinou-me a ser fraca. Ensinou-me a ter medo. 
Pego no telemóvel e vejo uma mensagem. Abro-a e nela diz: Não sofras. Sorrio e penso; É tarde de mais.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Saudade.



Estou sentada de baixo da figueira. Os mosquitos atacam a minha pele como se estivessem esfomeados. Odeio mosquitos, mas desta vez não me importo. O cheiro que paira por o ar é o cheiro da tranquilidade, da paz. Cheira-me a relva molhada e a figos. Combinação perfeita. Não sei porque gosto tanto do cheiro dos figos, não gosto de come-los.
Olho para o céu e este está perfeito. O típico céu de fim de tarde. O dia está a terminar e dentro de casa consigo ouvir a minha família a falar. Não consigo entender o que dizem, de facto, não me importa.
Do outro lado da vedação oiço o som da água, e dos miúdos a rir. 
Sinto o rabo molhado, deve ser por a relva ter acabado de ser regada, mas mais uma vez, não me importo.
Oiço o portão abrir e é o meu irmão quem entra. Traz às costas uma sombrinha de praia e a toalha pendurada num ombro. Sorri-me e diz-me:
– Que estás aí a fazer?
– Nada.
O que estava a fazer?! De facto, não estava a fazer nada. Estou apenas a aproveitar o tempo que me resta. Amanhã por esta hora já não estarei aqui.
­ – Nádia! ­ – Oiço a minha mãe a chamar-me.
– Sim? – Respondo.
– Anda tomar banho.
Finalmente chegou a minha vez.
Levanto-me e calço os meus chinelos de dedo. Abandono o meu lugar preferido no mundo e dirijo-me à porta de entrada, passando por o pátio que já se encontra com a mesa para o jantar. A minha família adora jantar ao ar livre. Eu também.
Entro dentro de casa e tudo o que vejo são objetos de praia. Entro na sala e deparo-me com os mais velhos a ver televisão. A Ana e o Pedro estão sentados num sofá já com o banho tomado e o meu irmão está deitado na minha cama. Está a dar os morangos com açúcar.
– Nuno, estás a encher-me a cama de areia! – Grito-lhe.
O meu irmão limita-se a olhar-me e a rir. É tão lindo.
– Vais tomar banho? – Pergunta-me.
– Vou. – Respondo-lhe ao colocar-me de joelhos no chão para tirar a roupa que vou vestir nesta noite da minha mala de viagem.
Sinto uma aragem nas costas como se alguém passasse rápido de mais por mim. Olho para a cama e o meu irmão já não está lá.
– Nuno! – Grito.
Tento alcança-lo mas é escusado, é mais rápido que eu.
– Esperas só um bocadinho maninha. – Diz-me ao fechar-me com a porta da casa de banho na cara.
Passo por a cozinha e vejo a minha mãe e a minha madrinha a fazer o jantar. Sento-me numa das cadeiras e fico a observa-las.
– Então o teu irmão roubou-te o lugar? – Pergunta-me a minha madrinha com um sorriso nos lábios.
Encolho os ombros e faço que sim com a cabeça.
Fico ali sentada por uns minutos e o meu irmão finalmente sai da casa de banho. Levanto-me da cadeira com as roupas na mão e passo por ele.
– Estúpido! – Digo-lhe.
Irrita-me tanto. Amo-o tanto.
Entro na casa de banho e o vapor paira no ar. Dispo o meu macacão novo que se encontra molhado da relva e de seguida o bikini. Sinto a areia na pele. Sinto-a a arranhar-me cada centímetro. Entro na balheira e ligo a água quente. Supostamente. O meu querido irmão acabou com a água quente. Obrigadinho Nuno.
Saio mais rápido do que entrei. Mas estranhamente, soube-me bem. Visto-me e abro a porta para sair.
Não está ninguém dentro de casa. Oiço risos lá de fora. Estão todos no pátio a jantar.
– Chegou a princesa. – Diz-me o meu irmão quando me sento no meu lugar.
Olho-o com um olhar matador e digo-lhe: – Acabas-te por a água quente, otário.
– Nádia! – Ralha-me a minha mãe.
– É verdade. Chegou depois de mim e ainda me roubou a água quente.
O meu irmão mostra-me a língua e dedica-se a descascar o camarão que tem nas mãos. O meu padrinho faz anos, e como tal, o jantar é um pouco mais elaborado.
As piadas saem fluidamente da boca do meu padrinho e toda a gente se ri. O homem é fantástico, sempre pronto a divertir os outros.
Quando toda a gente acaba de jantar, o meu padrinho dedica-se a fazer-me truques de magia com cartas. Nunca entendi como ele faz aquilo, mas a verdade é que era fascinante.
Para mim, tudo o que acontecia naquele sítio era fascinante. Aquele lugar fascinava-me. As gaivotas logo por a manhã fascinavam-me. O cheiro do pão quente quando acordava fascinava-me. O sabor do café a passar por a minha língua fascinava-me. Oh, o café da minha madrinha… Não há nada igual.
De facto, não há dias iguais aos que passei naquele lugar. Acabou-se tudo isso. Mas as recordações são como fotografias que guardo num sítio muito especial, o meu coração.
Bons 14 anos.
Armação de Pêra.
Saudades.